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Entrevista de José Luís Araújo ao Cidade Hoje

Entrevista de José Luís Araújo ao Cidade Hoje
"Faz falta uma verdaderira oposição na Câmara Municpal"

José Luís Araújo, candidato do Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Famalicão, espera ver o partido representado no executivo. O candidato diz que falta uma oposição construtiva mas com um papel fiscalizador; propõe um gabinete de emergência social e mais apoio ao tecido económico.

Cidade Hoje (CH) - Qual o resultado expectável para o BE nesta eleição à Câmara?
José Luís Araújo (JLA) –
O Bloco propôs-se eleger um vereador, que é perfeitamente legítimo, e entendemos que é possível acontecer nestas eleições, desde logo pelo trabalho que o partido tem desenvolvido no concelho nos últimos 8 anos, principalmente no último mandato, em que desenvolvemos um trabalho intenso na Assembleia Municipal, com propostas, recomendações e tivemos uma postura determinada contra esta reforma administrativa (freguesias). Cumprimos o nosso papel fiscalizador e apresentámos propostas para o desenvolvimento do concelho.

CH – Que tipo de oposição pretende o BE desenvolver, se for eleito?
JLA –
A postura do Bloco é e será sempre construtiva. Criticar não significa destruir. Mas tem o propósito de denunciar situações de irregularidade. Faz falta uma verdadeira oposição na Câmara Municipal. O BE irá desempenhar um papel importante para a clarificação de muitas situações e irá também apresentar medidas alternativas que estejam a falhar e sejam importantes.

CH – Será diferente trabalhar com uma maioria mais à esquerda ou mais à direita?
JLA –
Não é relevante, respeitaremos em qualquer circunstância a vontade dos famalicenses.

CH – Qual a força de apenas um vereador perante uma maioria de outro partido ou coligação?
JLA –
Será um trabalho difícil tal como na Assembleia Municipal. O trabalho dos eleitos de um partido pequeno quando há uma maioria absoluta é sempre muito complicado. Espera mos que na Câmara não haja maioria absoluta para que as decisões sejam mais equilibradas e haja mais debate e concertação nas decisões importantes para o concelho. Aí o Bloco terá uma participação responsável, participativa, coerente, tal como tem tido na Assembleia Municipal, onde, mesmo perante uma maioria, conseguiu fazer um trabalho responsável. Exemplos: a proposta para a requalificação da VIM ou o apoio social ao arrendamento que apresentamos em 2010 e só agora a Câmara implementou.

CH – A CDU é o principal adversário do Bloco nesta eleição à Câmara?
JLA –
A CDU está implantada no terreno há muitos anos. Mas para nós a CDU é um partido como qualquer outro. Tem as suas propostas, nós as nossas. Não fazemos esse tipo de táctica política, de ataque específico. Queremos transmitir as nossas propostas concretas para o desenvolvimento do concelho, sem ter uma visão político-partidária.

CH – Que áreas privilegia o Bloco de Esquerda?
JLA –
Propomos a criação de um gabinete de emergência social que analise em permanência a situação social do concelho, que permita corrigir as medidas. A Câmara tem de ajudar a criar condições para que a economia comece a despertar, de forma a criar emprego que é fundamental para ultrapassar situações
de crise. A Câmara tem que ajudar o tecido empresarial a ter meios e condições para superar esta situação de crise, e pode fazê-lo reivindicando apoios concretos a nível nacional e na União Europeia. A conclusão da variante a poente é fundamental para o desenvolvimento do concelho. A requalificação urbana é outra proposta e esta tem duas vertentes: económica e social. Depois, é importante finalizar as redes de água e saneamento. É inaceitável que ao fim de tantos anos essas infra-estruturas não estejam concluídas. Na educação também ainda há muitas lacunas infra-estruturais.

CH – De que forma vai o BE capitalizar o descontentamento social, visível nas ruas?
JLA –
O Bloco teve sempre uma postura coerente mesmo a nível nacional. Em 2011, demarcou-se desta opção pela Troika, que custou-lhe eleitoralmente deputados, mas confirma-se que o Bloco tinha razão. A nível local temos um candidato do PSD que é o representante do principal partido da coligação de Passos Coelho. Esse candidato nunca se opôs a essas medidas. Os famalicenses estão atentos a isso. Sabem que a coligação de direita em Famalicão não é diferente da coligação nacional e isso irá ter repercussões a nível eleitoral.

CH – Como avalia a gestão de 12 anos da governação de Armindo Costa?
JLA –
A governação desta coligação não foi de todo negativa, porque o concelho desenvolveu-se. Contudo, verifica-se uma centralização do crescimento, não havendo um desenvolvimento equilibrado do concelho. Muitas freguesias foram completamente esquecidas. Com os meios que a Câmara teve, apesar de ter herdado uma dívida considerável, não conseguiu cumprir o que prometeu. Esta enveredou por uma gestão absolutamente populista, onde conta muito mais o que parece do que aquilo que é. Outra promessa falhou, e ainda bem, que foi a cidade desportiva, porque o modelo de financiamento iria comprometer gerações de famalicenses. Relativamente ao Parque da Devesa, apresentado como a grande obra, o BE absteve-se quanto à forma como foi negociado. Agora é muito bonito mas quando for implementada a construção que a Câmara autorizou o parque vai ficar cercado por betão. Ou então, a próxima Câmara vai terá que indemnizar os proprietários em 15 milhões euros.

OS MAIORES PARTIDOS ENTRARAM NO CAMPO DA DEMAGOGIA

CH – Que recursos tem o Bloco para desenvolver esta campanha autárquica?
JLA –
O Bloco não tem os recursos que têm os outros partidos. Isso significa que temos de fazer uma campanha de proximidade, apresentando as nossas ideias directamente às pessoas, na medida em que for possível. Aproveitando também a comunicação social e outros meios de divulgação como a Internet. Não temos meios para colocar outdoors, como outros partidos estão a fazer, mas nesse aspecto mostramos respeito pela crise que as pessoas estão a viver. Quando olhamos a
quantidade de cartazes espalhados pelo concelho pensamos que a crise, afinal, não chega a todos.

CH –É uma crítica às duas maiores forças partidárias?
JLA –
O cenário mudou relativamente aos últimos tempos. Temos um candidato do PSD/CDS no poder que está há quatro anos a fazer campanha eleitoral, aproveitando todos os meios das funções públicas que desempenha para fazer campanha. De forma
exagerada. O PS começou mal este processo autárquico, mas tem vindo a afirmar-se de outra forma. Quer um quer outro têm estado numa caça ao voto que chega a ser preocupante, porque estão a entrar no campo da demagogia, que não ajuda à clarificação das ideias e dos projectos, nem ajuda a uma reflexão mais ponderada.

CH – Ao nível das freguesias, o BE terá candidatos em todas?
JLA –
O dossiê não está fechado, estamos a fazer um esforço para concorrer ao máximo possível. Temos a preocupação em concorrer onde haja uma estrutura consistente do Bloco e que possa garantir uma resposta clara às populações. A concelhia não impôs a nenhuma freguesia a decisão de concorrer. Agora, reconhecemos que o Bloco tem ainda muitas fragilidades ao nível de estruturas nas freguesias.

CH – A lista para a Câmara está completa?
JLA –
Estamos a tentar atrair pessoas novas e que possam trazer outra visão e outra dinâmica à política. O processo não está fechado. Mas é certo que as pessoas eleitas irão cumprir o seu mandato e o que prometem aos famalicenses.

Entrevista por Alzira Oliveira para o Cidade Hoje.